terça-feira, 14 de junho de 2011

Festival Varilux - Uma Vida de Gato



Personagens bem construídos em uma história batida poderiam fazer de "Une Vie de Chat" mais um filme irrelevante, daqueles que se esquecem com facilidade. No entanto, a beleza gráfica exalta cada cena e cada personagem, trazendo assim a linguagem visual para o primeiro plano.

Direção de arte primorosa, principalmente quanto aos detalhes, justifica a animação quadro a quadro.

A história do gato de vida dupla, que mora com a filha de uma delegada de dia e com um ladrão de noite, cria uma identidade visual que marca o filme como obra única. Nem todo o maniqueísmo formado pelo embate entre o chefe dos mafiosos e a família de Zoé, filha da delegada, consegue ofuscar o show visual de "Une Vie de Chat". Sabemos sempre o que o personagem irá fazer, mas nunca o que os nossos olhos irão ver.

Lindo e único.

Visto no dia 13/06/11 no Teatro Maison de France. Presença de Audrey Tautou e do diretor Alan Gagnol.

domingo, 12 de junho de 2011

Festival Varilux - Simon Werner Desapareceu



Tudo é uma questão de ponto de vista.

Lembrando estruturalmente "Elefante", "Simon Werner..." possui um roteiro multiplot. Em uma festa, garota bêbada vai caminhar para tentar se sentir melhor, lá encontra o que parece ser um morto. Esse é o ponto de partida para vermos a trama a partir do ponto de vista de quatro personagens: Jérémie, Alice, Rabier e Simon. Dentro de cada ponto de vista construímos e desconstruímos a história. Não somos traídos, e sim induzidos a nos enganar.

Gobert conduz muito bem sua câmera e seus atores. É fascinante que consigamos adentrar nos universos dos quatro personagens sem perdermos o fio da meada.

O maior trunfo do filme é também contraditório. A imprecisão narrativa nos deixa com um gosto de quero mais, ao passo que parece deixar lacunas importantes na história. O filme é muito curto para todo o seu potencial narrativo. Criam-se personagens maravilhosos que não são visados com o devido valor. Por exemplo: Laetitia e Frédéric.

Se a narrativa é contraditória, o mesmo não se pode dizer da arte e da técnica. Fotografia, trilha sonora, som, montagem - Todos estão em sincronia e são executados com precisão.

Simon Werner Desapareceu é a grande surpresa do festival. Contendo uma premissa passada, conquista com a profundidade de seus personagens. Um trunfo do roteiro, da direção delicada e das atuações sob medida.

Visto em 12/06/2011.

sábado, 11 de junho de 2011

Festival Varilux - Potiche.



Potiche mantêm o bom nível do festival, entretanto perpassa um caminho diferente. Enquanto "Copacabana" e "Uma Doce Mentira" cumprem seus papéis sem dar saltos maiores que as pernas, Potiche promete, mas não cumpre.

A presença excessiva de maneirismos impede que o filme se torne a obra prima que parece preparar nos minutos iniciais. A montagem, o roteiro, a mise en scène, todos lembram estruturalmente a um videoclipe. Com muito requinte, é claro.

Apesar da arrumação brega, cada sequência do roteiro é uma pérola. É de se imaginar que as pessoas a lerem a sinopse detalhada ficaram embasbacadas, se gostaram do resultado já são outros quinhentos. Dentro das sequências do filme, as relações entre personagens são construídas maravilhosamente. Os personagens são extraordinários e ao mesmo tempo palpáveis, conduzidas por atuações de peso. A lógica familiar é composta de forma maestral. Talvez por isso a atuação de Depardieu seja ofuscada. Ao contrário de Deneuve, que brilha.

A direção de arte, a maquiagem, o figurino e a trilha sonora são jóias a parte. A história da defeituosa Potiche que não foi feita para ficar na prateleira traça um caminho paralelo ao filme: Um diamante bruto e belíssimo.

Visto no dia 11/06/11 no Festival Varilux.

Festival Varilux - Uma Doce Mentira



Assim que vi Audrey Tautou entrando na sala de projeção, pensei: Que se dane o filme, a Audrey esta aqui. Mas logo que o filme começou, fui traído. Entrei na história de tal maneira que esqueci o mundo durante cem minutos.

Vi uma comédia leve, sem nenhuma pretensão de ser mais do que propõe: Uma história que nos leve ao divertimento. Só que ao contrário da maioria das comédias americanas que entram em circuito, não a esquecemos passadas horas da exibição.

O roteiro brilhante, as lindas locações, a fotografia competente e o brilho de Tautou transformam "De Vrais Mensonges" não em uma obra prima, mas em um filme inesquecível.

O filme narra a história de uma cabeleireira que tentando amenizar o sofrimento da mãe com mentiras, acaba perdendo o controle da situação.

É de espantar a forma como o cinema da França vem evoluindo com o passar do tempo. Tornando-se cada vez mais acessível, não perdendo a qualidade e o bom gosto. "De Vrais Mensonges" é o exemplo perfeito não dessa fase, mas desse processo em que se encontra o sempre vivo cinema francês.

Visto no dia 10/06/11 no Cine Odeon com a presença de Audrey Tautou e Philippe Martin.

Festival Varilux - Copacabana



Meses se passaram e o tempo só fez bem a visão tida por mim sobre o filme. A fotografia esplendorosa somada a dinâmica entre Isabelle Huppert e Lolita Chammah, fazem desse um dos melhores filmes do ano que passou.

Por mais mirabolante que possa parecer a sinopse do filme, que não vou definir aqui, é basicamente a relação entre mãe e filha que segura o filme inteiro. As duas personagens tem personalidades completamente diferentes, e equilibrar esses contrastes com o grande amor que nutrem uma pela outra é o que mantêm a atenção sobre o filme. Apesar das excelentes subtramas.

Fitoussi consegue extrair o melhor de seu elenco e escolhe enquadramentos que deem dramaticidade necessária, sem perder o tom de comédia.

Sintetizando, Copacabana é um deleite.

Visto no Festival do Rio

Festival Varilux de Cinema Francês.



Depois de muito tempo sem postar, anuncio para os meus leitores (Risos) que farei uma pequena cobertura do Festival Varilux de Cinema Francês que está rolando desde o dia 10/06 e vai até o dia 16/06. Em breve postarei uma pequena resenha sobre o filme de abertura: Uma doce Mentira. Estão na minha lista para serem assistidos: Potiche, Vênus Negra, Xeque-Mate, O Pai dos meus Filhos e Os Nomes do Amor. O filme Copacabana já foi assistido no Festival do Rio. Vou tentar dar uma puxadinha na memória e escrever um pouco sobre ele também.

Mais informações sobre o festival que está acontecendo simultaneamente no Rio, em São Paulo e em outras cidades no site: http://www.festivalcinefrances.com/

domingo, 3 de abril de 2011

Oito e Meio.

Fellini realiza um filme que em muito se aproxima da obra Machadiana: Irônico e repleto de metalinguagem. “Oito e Meio” é um filme extremamente visual, conhecemos seus personagens antes mesmo de suas falas saírem da boca. Sabemos que Carla é exagerada e extravagante só de olharmos para o seu figurino, o mesmo quanto a Luísa e sua seriedade. Nesta obra, os diálogos são apenas um aperitivo a mais, de tão clara que é a linguagem cinematográfica.

“Oito e Meio” conta a história de Guido, um cineasta italiano com uma tremenda crise de inspiração. A trama gira em torno da busca de Guido por uma trama para o seu próprio filme, onde seu passado e presente acabam se misturando, em uma busca doentia por referências. Guido tem de lidar com diversos fantasmas de sua vida, que vão de sua criação católica até a forma ‘errada’ como amou as mulheres de sua vida. A paixão pela sétima arte e a necessidade de ideias, refletem-se em praticamente todas as ações de Guido: Seus gestos, falas e devaneios.

Como o próprio Fellini expõe em diversos diálogos do filme, essa é uma obra sincera, direta, que ousa ao fugir dos parâmetros convencionais do belo e cria um novo conceito de beleza cinematográfica. A estética e a estrutura dos filmes de Fellini acabam por se tornar únicas e características do diretor.

Interessante observar que a maioria dos personagens que cercam Guido veem em cada atitude dele algo genial, como se ele implantasse conceitos em tudo que fizesse. Quando o próprio personagem afirma para o crítico que quer apenas fazer algo honesto, de forma a exorcizar seus demônios e possibilitar que os outros façam o mesmo. Reflexo claro do que o próprio Fellini propõe com esse filme.

Conceitos à parte, é magnífica a forma como o processo de criação do cinema é retratado. O filme é repleto de cenas belíssimas, orquestradas pela trilha sonora de Nino Rota e mostradas sobre a ótica de uma grandiosa fotografia preta e branca.

Há de se destacar o papel simbólico que certas mulheres possuem em sua vida. Saraguina remete aos instintos de Guido, o primeiro contato que o mesmo teve com seus desejos e com o questionamento aos valores que lhe foram impostos. Luísa é a sua realidade, é a que o tira dos devaneios e o traz para a dureza da vida. Luísa o conhece de verdade, é a única que o vê não como um gênio e sim como um homem.

“Oito e Meio” é sem dúvida uma obra primorosa, que marcou a história do cinema e a história dos filmes que falam sobre cinema. Quanto a história de Guido, o que melhor justifica toda sua alma e trajetória é uma frase célebre dita e repetida por Cláudia: “Porque não sabe amar”.